30/12/07

25/12/07

Feliz Natal



Fotografia de Pedro Palma
http://www.pedropalma.net/

Os miúdos andavam por lá descalços, vestidos de pó e de sorrisos.
Os miúdos de todo o mundo , mesmo os que não sabem que existe a palavra Natal, mas têm um coração maior do que o Mundo ... Desejam UM FELIZ NATAL !

Natal 2007

Quando eu era pequeno, “fazer o presépio” era participar de um conto de fadas, aprender um passe de magia, ouvir uma lição de amor e humildade que nos poderia inspirar pela vida fora.
Era sobretudo uma festa e uma festa com um mistério muito especial. Arrancava-se o musgo das pedras da paisagem para levar para casa e cobrir o chão, imaginando-se montanhas e vales, e rios de prata azulada. Construía-se a cabana com troncos e palhinhas, colocava-se com delicadeza o menino de barro na improvisada manjedoura, São José e Maria eram a projecção do amor de pai e mãe que ali se arrumavam para velarem por nós. E vinha ainda lá do fim dos tempos o calor da vaca e do burrinho, e os Reis Magos que chegavam conduzidos pela Estrela que anunciava a Boa Nova. E surgiam, como por encanto, figurinhas de populares, com ofertas simples, pastores com ovelhas, a samaritana com o cântaro à cabeça, ao lado do poço da água gelada daquela noite de Dezembro…
Era assim o presépio quando eu era pequeno. Uma excitação que nos arregalava os olhos de magia. Algo que não se compreendia bem, que estava para lá do nosso entendimento, mas que nos aquecia o coração, que se prolongava pelos dias, até chegar a tal noite onde, em redor da camilha, com uma braseira aos pés, se comia a consoada e se esperavam algumas prendas. Livros, sobretudo livros, era a minha esperança, sempre concretizada.
Fui feliz, muito feliz, envolvido pelo calor do pai e da mãe, alguns anos depois também ao lado da irmã. Era uma família aquecida da noite fria. Havia problemas como em todo o lado, mas era feliz. Coisa bonita de se dizer, mas sobretudo de se sentir.
Nunca soube, nem sei, se haverá algo de divino neste entremez, anualmente repetido, mas do que não duvido é da sua poderosa força magnética. O Natal fazia-me sentir bem. Quando eu era pequeno. Era frio e era quente, era gelado e tórrido, uma mistura magnifica que nunca esquecei.

Fui mantendo a tradição abnegadamente. Sem esforço. Com prazer. Ano após ano. O presépio nunca deixou de estar presente, ali no canto da sala, e sempre amorosamente retocado. A árvore de Natal, o Pai Natal, as filhozes, os bilharacos (sempre com a receita do pai), a consoada, o sacrificado peru, e o bacalhau da tradição… As crianças fazem-se homens, os filhos fazem-se pais, os pais vão ficando pelo caminho, mas o Natal continua marcando a esperança em algo de imutável. Será assim?
O olhar dos homens vai mudando. A magia vai cedendo a insinuações cada vez mais constantes. E torpes. Arrancam-nos a inocência dia a dia. É preciso desconfiar de tudo.
Olha-se agora o presépio e percebe-se que as figurinhas foram compradas numa loja de 300, já não feitas à mão, mas reproduzidas em moldes made in China. As decorações foram mesmo compradas numa outra loja chinesa e são o reflexo de trabalho escravo infantil. Olha-se a cabana em baclite e, lá atrás, dois políticos discutem se aquele é ou não terreno de Israel ou da Palestina. Como não conseguem chegar a um acordo, ameaçam, e cumprem a ameaça, com bombas que reinvidicam o território. E assassinam milhares.
Os três Reis Magos entregam ouro, incenso e mirra, mas nenhum deles chegou desinteressadamente por montes e vales, conduzidos por uma estrela. Todos vieram em jactos particulares e saíram das suas tendas oficiais há coisa de minutos. Os camelos são o exotismo que vende. É tudo uma montagem, uma encenação para impressionar os espectadores das dezenas de cadeias de televisão que cobrem o acontecimento.
Uma delas tentou o exclusivo, ofereceu milhares de dólares, euros ou rublos, mas não conseguiu. Aliás, esta cimeira destina-se a incrementar sobretudo os negócios. São homens de negócio que acodem ao chamamento. Disputam mercados e influências políticas e estratégicas.
O único pastor que por ali anda, balouça na mão direita um leitor de CDs e ouve Quim Barreiros. Um dos Reis, ditos Magos, publicita uma afamada marca de champanhe que se consome muito nesta quadra. O outro, tenta vender com soberba o seu petróleo, e ao terceiro descobriram olhares maliciosos e lúbricos, que levaram alguns a chamar-lhe pedófilo. Disfarçado.

A estrela? Não há estrela nenhuma, mas apenas um cintilante e pouco discreto satélite norte-americano que vai fotografando o evento. A CIA desconfia de armas nucleares.
Um grupo de senhoras, de uma qualquer organização dita moralista, parodia a um canto, sonoramente, o facto de Maria ter concebido sem pecado, e discorrem sobre situações várias, donde, em nenhuma delas, São José sai beneficiado.
A vaca é louca, afirmam as autoridades sanitárias, e o burro é mesmo burro, se não, não se prestaria a tal preparo. Tão burro que dois oficiais das finanças se preparam para o penhorar como veículo de transporte prioritário.
Num letreiro avisa-se: “É proibido fumar.”
Nem o menino está a salvo das iras de um grupo de jovens ecologistas que grita que o milho é transgénico e quer incendiar as palhinhas. Maria socorre-o e ampara-o no seu colo.
Esquecia-me do anjo. Que faz ali pespegado de asas abertas? “O que é um anjo?”, pergunta a criança à mãe que atende o telemóvel? E esta responde: “Alguém que nos guia na vida.” “Assim uma espécie de GPS?”, conclui a miúda.
Afasto de mim esta imagem e persisto no meu Natal de criança. Será ainda possível? Quero a inocência do musgo arrancado das rochas da montanha com uma faca da cozinha levada de casa. Quero o frio e o calor que sabem bem. Quero a minha infância de volta, quero essa idade aberta à esperança. Quero-a para mim e para as outras crianças. Quero que elas não percam a magia que me conduziu até aqui. Quero lá saber que as figurinhas tenham sido compradas numa loja de 300 e já não sejam de barro cozido à mão. O que eu queria sobretudo era acabar com o trabalho infantil escravo. Que existia há 2000 anos e permanece, apesar das prescrições da ASAE. O que eu desejava era que as crianças nascessem livres e iguais em direitos. E deveres. E fossem homens, e fossem velhos (velhos, sim!, não seniores ou da terceira idade) e fossem dignos. Para consigo e para com os outros. E houvesse Natal, todos os anos. E o espírito do Natal se estendesse por todos os dias dos anos. E que o Natal, divino ou não, fosse sobretudo humano.

Texto escrito por Lauro António
http://www.lauroantonioapresenta.blogspot.com/

16/12/07

Natal no Zimbabwe

A minha amiga Lena que foi no inicio do mês de Dezembro para a Africa do Sul Zimbabwe Moçambique e Madagáscar fez-me chegar estas palavras por email.

Meus Queridos estou no Zimbabwe, terra onde não há pão, não há vida não há gente, e os poucos que deambulam com um copo vazio na mão, esperam por um dólar que não sabem onde nem como gastar! Olhos vazios, bocas famintas, estômagos selados por fome e tristeza, portadores de malária e HIV, toldados pela neblina das Cataratas que inunda a Terra, o Sol e as Vidas, não têm nada, nem Presente nem Futuro, nem Esperança!!! Traficam até o pão, transportado em montes sobre cabeças que deambulam em pés descalços entre a Zambia e a porta da palhota, para venderem aos turistas, poucos, endinheirados, com um lucro de 8.000%!! Tudo aqui é ficção! Posso garantir-vos, aqui e agora, neste final de 2007, que DEUS não existe nem nunca aqui esteve. BEIJO GRANDE com saudades de bacalhau com batatas a murros, muitos murros... lena

Com o calorzinho africano não me sinto inspirada para enviar mensagens de NATAL.
Mas como, quem me conhece, sabe que eu não simpatizo muito com o senhor, este ano resolvi rapar-lhe as barbas, aparar-lhe a trunfa ( que já cansa), mudar-lhe a indumentária para calções, T shirt e havaianas, encostar o trenó e trazer as renas para este corno de mundo onde a fome, a sida, a tuberculose, a malária e a pobreza ainda matam milhares de crianças mas que gostavam muito de o conhecer!
Obrigada PAI NATAL se tiveres coragem para isso! lena

Lena
Daqui, deste pedacinho de terra, também cheia de gente de olhos vazios, por todas as opostas razões que apontas, mando-te este presente, A MATILDE uma canção com letra adaptada pelo Tom Waits de uma toada do inicio do povoamento da Austrália acerca de um cobertor que os homens carregavam nas costas e a que chamavam Matilde, e com quem falavam como se fosse uma Matilde de verdade.
Assim, chamavam Matilde ao fardo, que carregavam.




TOM WAITS
Waltzing Matilda

Wasted and wounded, it ain't what the moon did
I've got what I paid for now
See ya tomorrow, hey Frank, can I borrow
A couple of bucks from you, to go
Waltzing Matilda, waltzing Matilda, you'll go waltzing
Matilda with me

I'm an innocent victim of a blinded alley
And I'm tired of all these soldiers here
No one speaks English, and everything's broken
And my Stacys are soaking wet
To go waltzing Matilda, waltzing Matilda, you'll go waltzing Matilda with me

Now the dogs are barking
And the taxi cab's parking
A lot they can do for me
I begged you to stab me
You tore my shirt open
And I'm down on my knees tonight
Old Bushmill's I staggered, you buried the dagger in
Your silhouette window light to go
Waltzing Matilda, waltzing Matilda, you'll go waltzing
Matilda with me

Now I lost my Saint Christopher now that I've kissed her and the one-armed bandit knows, and the maverick Chinamen, and the cold-blooded signs
And the girls down by the strip-tease shows go
Waltzing Matilda, waltzing Matilda, you'll go waltzing Matilda with me

No, I don't want your sympathy, the fugitives say that the streets aren't for dreaming now
Manslaughter dragnets and the ghosts that sell memories
They want a piece of the action anyhow go
Waltzing Matilda, waltzing Matilda, you'll go waltzing Matilda with me

And you can ask any sailor, and the keys from the jailor
And the old men in wheelchairs know
That Mathilda's the defendant, she killed about a hundred
And she follows wherever you may go
Waltzing Matilda, waltzing Matilda, you'll go waltzing
Matilda with me

And it's a battered old suitcase to a hotel someplace
And a wound that will never heal
No prima donna, the perfume is on
An old shirt that is stained with blood and whiskey
And goodnight to the street sweepers
The night watchman flame keepers
And goodnight to Matilda too

10/12/07

Vem aí o Natal !

Foto da minha árvore de Natal ... As Borboletas.

Na última semana de Novembro, comecei a preparar-me para o Natal, como quem se atavia para dia de Festa. Se encontrava alguém na rua, ou mesmo pelo telefone, saía-me sempre a invariável pergunta : Sabes uma coisa ? E assim, conseguia que do outro lado saltasse aquele lado de cuscovelhice, habitual entre comadres vizinhos amigas e afins. Sabes... repetia eu ... Vem aí o Natal ! Sentia-me no papel dos assadores de castanhas á volta do carro, a atiçar o lume, a pôr as castanhas no fogareiro ... a apregoar.... Quentes e Boas, neste caso, mais concreto... Vem aí o Natal .. o que dava lugar a gargalhada espôntanea ... já ? Pois é... está quase... e eu ali, ao lado do fogareiro, á espera dos clientes, para lhes dizer, que eram de confiança, que vinham lá da terra, e rematava ao freguês, se queria dúzia ou dúzia e meia, que isto de Natais ou se começa logo no inicio, porque se não, quando se vai a ver... ele já lá vai... já passou a consoada os coscurões, as broinhas, os belhoses, o bolo rei, as passas e os pinhões, os 5 kilos a mais, as iluminações, as canções alusivas á época, o encontro da familia, que costuma meter anjos andores e nossas senhoras como nas procissões. Ah ... e as conversas, claro está, coitado do tio Chico, está a ficar velhote , ou , tu sabes que a Maria aquela a filha da tia Joaquina, se divorciou, e a coitada da Amélia viúva que teve que ir para o Luxemburgo procurar uma vida melhor , e o Manel que anda tristonho porque a Rosário afinal gostava era do filho da Laurinda. Ah .. e o Bacalhau e as batatas com grelos ou com couves, com azeite do bom claro está. E depois em poucos minutos desfazem-se os laços dos presentes, e depressa acaba aquele ar festivo das pessoas desejosas de descansarem, depois de uma azáfama cruel. Era hora então de pôr as castanhas no cartuchinho de papel, como os presentes, de me despedir, e ir vender o meu Natal antecipado para outro lado.
Eu acho muita graça ao Natal, não pelas razões óbvias, mas porque parece que a maioria das pessoas entra em transe, acabam-se logo os temas que afligem as pessoas, que a gasolina está cara e já nem se pode passear como dantes, a falta de emprego, o dinheiro que não dá para nada, que os nosso País não evolui como os restantes Países da Europa, e a Crise ... Oh mulher ... a Crise , e entra em grande a Onda da solidariedade, dos jantares dos pobrezinhos, aos jantares de confraternização, como se durante o ano todo os pobrezinhos não tivessem o direito de comer, como se as pessoas, não se vissem todo o ano, e depois é a cereja em cima do bolo rei , tem que se aturar o Ministro, o Patrão, o Chefe de Secção e por aí adiante, e ainda temos que levar com esta cena toda, em patéticos jantares de confraternização. Ou acham que as pessoas vão de livre vontade ? Elas vão... lá isso vão ... mas a vontade acho que é pouca, pelas conversas de café que vou ouvindo aqui e acolá. Uma coisa que me intriga de sobre maneira no Natal, é a seguinte questão, o Natal é uma Festa do calendário cristão ... e então os outros, os que não são , comemoram o quê ? Tenho ouvido dizer que é a familia, e sorrio entre dentes quando nas lojas chinesas, as donas de casa, logo pela manhã desejam Bom Natal aos senhores e senhoras de olhos em bico.
Aqui o Natal, é uma palavra, é de calendário, e conta a minha mãe que o meu Pai, quando eu tinha um ano de idade, e eu não percebia nada de nada, fez a árvore de Natal mais bonita para mim, e os meus olhos brilharam, e as minhas mãozitas quiseram brincar com os enfeites, e é por essa razão que eu ainda hoje acredito no meu Pai Natal.

06/12/07

Barbara

Rappelle-toi Barbara
Il pleuvait sans cesse sur Brest ce jour-là
Et tu marchais souriante
Épanouie ravie ruisselante
Sous la pluie
Rappelle-toi Barbara
Il pleuvait sans cesse sur Brest
Et je t'ai croisée rue de Siam
Tu souriais
Et moi je souriais de même
Rappelle-toi Barbara
Toi que je ne connaissais pas
Toi qui ne me connaissais pas
Rappelle-toi
Rappelle-toi quand même ce jour-là
N'oublie pas
Un homme sous un porche s'abritait
Et il a crié ton nom
Barbara
Et tu as couru vers lui sous la pluie
Ruisselante ravie épanouie
Et tu t'es jetée dans ses bras
Rappelle-toi cela Barbara
Et ne m'en veux pas si je te tutoie
Je dis tu à tous ceux que j'aime
Même si je ne les ai vus qu'une seule fois
Je dis tu à tous ceux qui s'aiment
Même si je ne les connais pas
Rappelle-toi Barbara
N'oublie pas
Cette pluie sage et heureuse
Sur ton visage heureux
Sur cette ville heureuse
Cette pluie sur la mer
Sur l'arsenal
Sur le bateau d'Ouessant
Oh Barbara
Quelle connerie la guerre
Qu'es-tu devenue maintenant
Sous cette pluie de fer
De feu d'acier de sang
Et celui qui te serrait dans ses bras
Amoureusement
Est-il mort disparu ou bien encore vivant
Oh Barbara
Il pleut sans cesse sur Brest
Comme il pleuvait avant
Mais ce n'est plus pareil et tout est abimé
C'est une pluie de deuil terrible et désolée
Ce n'est même plus l'orage
De fer d'acier de sang
Tout simplement des nuages
Qui crèvent comme des chiens
Des chiens qui disparaissent
Au fil de l'eau sur Brest
Et vont pourrir au loin
Au loin très loin de Brest
Dont il ne reste rien.

Jacques Prévert